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Psicólogo LGBT+ |
João Furtado

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Como foi minha primeira viagem solo para fora do país: México, Ney Matogrosso e perrengues.

Sempre que viajo, acabo me deparando com algum tipo de perrengue, mas que no fim, sempre me edifica e me faz aprender sobre alguma coisa. Viajar para o México sozinho em uma primeira viagem para o exterior, foi de certa forma, desafiador. Começando pelo ponto de o voo ter três conexões diferentes, coisa que eu nunca tinha feito na vida (eu só tinha voado uma única outra vez até São Paulo). O primeiro voo era em Florianópolis para São Paulo, de São Paulo para Colômbia e, por fim, da Colômbia para o México. Apesar de eu ter perdido o ultimo voo, tudo correu bem e sem grandes estresses. Ter que atravessar correndo o aeroporto de Bogotá com mala e mochila foi uma memória que eu não quero vivênciar novamente. No entanto, a perda do voo me possibilitou conhecer duas pessoas incríveis (que também perderam o voo): Uma Colombiana e outra Sul-Coreana, ambas me possibilitaram por em teste meu espanhol e meu inglês nas 4 horas adicionais que esperamos juntos o próximo voo.


O Pouso: "Caraca, eu tô no México!"

A primeira coisa que me deu um "oi" não foi ninguém falando espanhol, foi o próprio ar. A altitude da Cidade do México não brinca, ela te cumprimenta te deixando meio ofegante só de puxar a mala. É um ar diferente, mais seco, que parece que te avisa: "Se liga, você não tá mais em Floripa".


Aí eu peguei o Uber pro Airbnb e, enquanto olhava aquela imensidão de carros e prédios pela janela, a ficha não caiu, ela despencou. Cheguei no apartamento, fechei a porta e o silêncio foi ensurdecedor. Ali eu entendi: ok, agora sou eu, meu espanhol de "duolingo" e o Google Maps.

Não tinha ninguém pra perguntar "e aí, vamos comer onde?" ou "que horas a gente sai?". Se eu quisesse passar o dia comendo taco de rua ou ficar sentado numa praça, a decisão era 100% minha. Dá um frio na barriga? Dá, e é um medo bem real de se perder ou não ser entendido. Mas, junto com esse medo, veio uma onda de liberdade que eu nunca tinha sentido na vida. Era eu sendo apresentado pra mim mesmo em outro idioma. Fui dormir tarde por ter perdido o voo, mas ainda sim, tive que acordar cedo para a primeira excursão da viagem.


O paraíso escondido de Tolantongo

Eu tive que acordar antes do sol pra encarar a estrada até as Grutas de Tolantongo. Vou te falar: o caminho é longo e as curvas na montanha não são pra amadores, por isso contratei uma excursão em grupo.

Quando você chega na beira do cânion e vê aquele rio azul turquesa lá embaixo, o cansaço some na hora. Parece que alguém tacou um filtro do Instagram na vida real.


Ficar naquelas "pozas" — as piscinas térmicas encravadas na encosta da montanha — olhando pro abismo foi o meu momento de paz total. A água é quentinha, o visual é de tirar o fôlego e você fica ali, só processando a imensidão de tudo.

Criei amizades muito bacanas com o pessoal da excursão, eram 5 americanos, 2 colombianos e um peruano, foi um bate-papo bem interessante que aqueceu ainda mais os idiomas desse poliglota que voz fala.

E a gruta? Entrar naquela caverna com uma cachoeira de água morna caindo na sua cabeça no escuro é uma das experiências mais surreais que já vivi. É um banho de energia (literalmente). Estar ali "sozinho", no meio daquela natureza toda, me fez pensar o quanto o mundo é gigante e o quanto eu sou corajoso de estar desbravando isso tudo por conta própria. Saí de lá lavado, renovado e pronto para o restante da aventura.

O Combo Cultural: Entre Gigantes

No meu segundo dia, eu decidi encarar os "pesos-pesados" da cidade: o Palacio de Bellas Artes e o Museu de Antropologia. E bicho, a escala das coisas lá é um soco no estômago. O Bellas Artes, com aquele mármore todo, parece um cenário de ópera que ganhou vida. Mas o soco de realidade veio mesmo no museu.


Quando eu parei na frente e olhei para aquele teto monumental que parece uma cachoeira flutuante, eu me senti minúsculo. Mas era uma sensação boa, sabe? O melhor de estar sozinho foi justamente esse luxo: se eu quisesse passar 20 minutos encarando uma única pedra asteca, tentando entender os detalhes, eu passava. Ninguém me cutucando, ninguém perguntando "já acabou?", ninguém querendo ir logo pro café. Era eu e a história, no meu tempo.

Acabei encontrando, por coincidência, o casal de amigos americanos que fiz na excursão do dia anterior, fizemos parte do passeio do museu, juntos e depois fomos para o outro ponto, que ficava próximo:

Pra fechar, subimos até o Castelo de Chapultepec. Quando cheguei lá no alto e vi o Paseo de la Reforma se estendendo lá embaixo, com aquele visual de skyline de filme, o meu cérebro - mais uma vez - deu o estalo da realidade de estar ali.


A Noite: Coragem na Zona Rosa

Vamos falar a real? Ir pra uma balada sozinho em outro país dá um frio na barriga que nenhum manual de viagem te prepara. Bate aquela dúvida: "Será que vou ficar num canto com cara de paisagem?". Mas respirei fundo e fui pro Blow Bar, na Zona Rosa.

A atmosfera LGBTQ+ de lá é bem diferente das do Brasil. É uma explosão de cor e energia que te puxa pra dentro. Observando o movimento e perdendo o medo de puxar um papo torto em espanhol, eu tive um insigth muito bom: a gente nunca tá realmente sozinho quando decide se abrir pra experiência.

Voltei de Uber às 2 da manhã, atravessando a Cidade do México deserta e iluminada. Eu tava exausto, óbvio, mas a sensação era de pura vitória. Aquele receio do início da noite tinha virado uma confiança absurda de quem sabe que o mundo, no fim das contas, é o quintal de casa.


Domingo de resguarde: Algo mais "leve"

Domingo na Cidade do México tem uma regra clara: sem pressa. Depois de fechar a Blow Bar na noite anterior, eu me dei o luxo de acordar tarde e deixar o despertador de lado. A ideia inicial era ir para os barcos de Xochimilco, mas quer saber? O "eu" viajante solo falou mais alto: "João, Xochimilco sozinho no domingo vai ser barulhento, longe e caro. Vamos de plano B?". E o plano B foi a melhor decisão que tomei.

Comecei o dia no Mercado de Coyoacán. Se você quer sentir o pulso real da cidade, vá ao mercado. O cheiro de tempero, o barulho das bancas e aquelas tostadas... meu Deus, as tostadas! Comi como um rei no meio daquela confusão organizada, curando a ressaca da balada com comida de verdade, daquelas que aquecem a alma.

De lá, decidi atravessar a cidade rumo ao norte para conhecer a Basílica de Guadalupe. E vou te falar: o choque térmico cultural foi absurdo. Sair da vibe "balada gay na Zona Rosa" na noite anterior e cair direto no coração da fé mexicana em pleno domingo foi uma das experiências mais marcantes da viagem: Paguei meus pecados da noite anterior.

Brincadeiras a parte, eu tenho o costume de sempre que visito uma cidade nova eu vou no maior templo católico do local para visitar e enviar fotos para minha mãe: Um ritual nosso.


Ver a devoção daquelas milhares de pessoas, entrar na basílica moderna e depois ver a antiga catedral toda inclinada (o solo de lá é louco!) te faz pensar muito. É um lugar que vibra uma energia que não dá pra explicar, independente de religião. Estar ali sozinho, no meio daquela multidão fervorosa, me deu uma perspectiva muito massa sobre o quanto o México é um país de contrastes profundos.


Teste de Fogo: O Sol, as Pirâmides e o teste.

No último dia na Cidade do México, tive que atingir meu ápice da logística e regulação emocional. Acordei às 5h da manhã para ver o sol nascer nas Pirâmides de Teotihuacán. E começou assim: aquele silêncio ancestral, o vento frio da manhã e a imensidão da Pirâmide do Sol me deixando sem palavras. Participando da excursão guiada pude conhecer mais da história antiga do México e como todo aquele monumento-cidade foi construído. Mas o destino tinha outros planos pro meu dia 20 de abril.


Apenas 8 minutos depois de eu ter decido da Pirâmide da Lua, o silêncio foi quebrado por estampidos que ninguém quer ouvir, muito menos num lugar sagrado daqueles. Tiroteio. Em segundos, o cenário de paz virou um filme de suspense e terror. A correria começou, o medo se espalhou mais rápido que qualquer outra coisa e o pânico tomou conta de quem estava em volta.

Ali, sozinho, a milhares de quilômetros de casa e no meio de um tiroteio, eu senti o peso da responsabilidade. Engraçado como a mente funciona: em vez de travar, eu entrei num "modo sobrevivência" que eu nem sabia que tinha. Vi pessoas ao meu redor desabando, tendo ataques de pânico, gente que não conseguia respirar nem andar.

Eu, que estava ali pra ser "só um turista", acabei me tornando uma boia pra desconhecidos de forma quase que natural. Comecei a ajudar quem estava pior, tentando acalmar a respiração de um, segurando a mão de outro, guiando as pessoas pra longe da confusão. No meio do caos, eu tive que ser a âncora de quem eu nunca tinha visto na vida. Foi ali que a ficha da "viagem solo" mudou de nível: eu não estava apenas cuidando de mim, eu estava testando a minha humanidade no limite.

Passar por isso me deu uma perspectiva que nenhum museu conseguiria dar. O João que saiu de Floripa achava que viajar sozinho era sobre saber ler mapas; o João que saiu de Teotihuacán naquele dia descobriu que, mesmo no meio de um tiroteio, ele conseguia manter a calma e ser o apoio de alguém. Saí daquelas pirâmides com as pernas tremendo, mas com uma certeza absurda: eu sou muito mais forte do que eu imaginava.

Apesar das perdas por este atentado, dos traumas causados a cada um dos turistas ali presentes, sei que essa memória não vai me atormentar, mas sim ser mais um motivo de continuar no caminho que estou trilhando.

Depois do "susto" a segunda parte da excursão foi degustação de Tequila e outras bebidas tradicionais do país, o que acabou aliviando um pouco a tensão pós-choque.



O outro desafio do dia veio depois: após o tour, tomei um banho e, em vez de descansar, enfrentei a estrada à meia-noite. Meu ônibus para Querétaro saía às 00:10h. Eu estava exausto, mas a adrenalina me manteve acordado. Viajei no escuro, cheguei a Querétaro às 4 da manhã e fiz o self check-in na base da determinação e curiosidade. Abrir a porta do Airbnb naquela madrugada foi a maior vitória da viagem. Eu venci o cansaço e valeu a pena.

Querétaro: O Respiro e o Rosa

Querétaro me acolheu. Saí do caos da capital para uma cidade que parece desenhada à mão. O Templo de Santa Rosa de Viterbo era meu vizinho — absurdamente bonito. E os Arcos? Fui em busca daquela foto perfeita, da perspectiva infinita, evitando os pontos turísticos óbvios. Foi lá, entre um café e caminhadas sem rumo que conheci um pouco mais do centro histórico da cidade.


Ney Matogrosso: A Potência do "Homem com H" na Reescrita das Masculinidades



A experiência de levar nossa pesquisa ao México, para o IX Colóquio Internacional de Masculinidades na Universidade Autónoma de Querétaro (UAQ), foi um divisor de águas em minha trajetória como psicólogo e pesquisador. Cruzar fronteiras geográficas para discutir as fronteiras do gênero me permitiu perceber como a figura de Ney Matogrosso, embora profundamente brasileira, ressoa de forma universal ao confrontar o binarismo colonial e a "moral dos bons costumes". Estar em um evento dessa magnitude, cercado por olhares latino-americanos atentos, reafirmou que a masculinidade é um território de disputa constante, e que a arte é a uma das ferramentas mais afiadas para desestabilizar as normas que ainda tentam nos aprisionar.  


Nosso trabalho, intitulado "Ney matogrosso: é bicho ou é homem?", utilizou o filme "Homem com H" (2025) não apenas como uma biografia, mas como um disparador para pensar o cinema como uma "tecnologia de gênero". Investigamos como Ney Matogrosso operou como um verdadeiro "bug" no sistema disciplinar durante a ditadura militar brasileira, utilizando seu corpo, sua voz aguda e sua estética andrógina-mutante para subverter o modelo de "macho alfa" imposto pelo regime. No palco e na vida, Ney demonstrou que a masculinidade hegemônica é uma ficção encenada e que o "desbunde" — o uso do erotismo e do deboche — foi uma estratégia política vital para sobreviver ao autoritarismo.  

O coração da nossa apresentação foi a metodologia da "pesquisa-espectação" e da autoetnografia. Para este estudo, registramos em diários nossas próprias afetações, memórias e angústias ao assistir à obra de Esmir Filho. Ao colocarmos nossos diários de dois homens gays e psicólogos "lado a lado", percebemos que o filme nos assistia de volta. Cenas como a recusa de Ney ao choro diante da agressão paterna na infância ou sua escolha pelo canto agudo em vez do grave compulsório no coral foram analisadas como atos de insubmissão que tocam na pele de todos aqueles que, em seus processos de subjetivação, não se sentiram representados pelos manuais tradicionais de virilidade.  

Durante a exposição no México, a recepção do público foi calorosa e provocativa. Discutimos como o "H" em "Homem com H" pode ser ressignificado como o "H" da Humanidade múltipla, que acolhe o "bicho", o anjo e o homem sem as amarras do binarismo. Apresentar esses resultados no exterior nos permitiu ver que a performance de Ney Matogrosso oferece um método para a contemporaneidade: o de performar até que a ficção da norma se desmanche e a liberdade de ser se torne realidade social. O palco, para Ney, e o Colóquio, para nós, serviram como zonas de suspensão e reinvenção das regras cotidianas.  

Voltei dessa viagem com a certeza de que a masculinidade não é uma verdade a ser descoberta, mas uma escolha a ser feita conscientemente. A trajetória de Ney Matogrosso nos ensina que vulnerabilidade e desejo são potências, e não fraquezas, e que a nudez de si mesmo é a forma mais radical de resistência política. Esse intercâmbio cultural e acadêmico em Querétaro foi, acima de tudo, um convite para que continuemos a ousar ser livres e a utilizar a psicologia e a arte como pontes para um novo mundo de existências possíveis. 

A Volta: Modo Sobrevivência (e Mala de Mão!)

O retorno foi uma maratona: Querétaro, CDMX, Bogotá, Rio de Janeiro e, finalmente, Floripa. O segredo? Apenas mala de mão. Ver as pessoas esperando na esteira do Galeão enquanto eu passava direto pela alfândega foi o auge da satisfação.

Durante todo o percurso de retorno, que foram 24 horas totais, agradeci mentalmente - e agradeço agora oficialmente - todos que foram peças importântes para essa viagem solo ocorrer: Ao Dr. Adriano Beiras e o Dr. Guilherme Sfredo por serem profissionais incríveis e por terem me porporcionado uma disciplina sobre Masculinidades tão fundamental para o meu entendimento e entrada nesse ramo de pesquisas.

Ao meu colega Samuel, por ter topado criar esse trabalho junto comigo na disciplina e porteriormente desenvolver essa apresentação, uma pena que não pudestes estar presente na viagem, mas estavas em essência.

Aos amigos e família que de alguma forma se fizeram presentes seja na vaquinha ou no suporte emocional.

Aos mes pais, que deram asas para que voasse desde muito cedo e que agora compartilham comigo essas constantes conquistas.

Aos meus filhos de quatro patas por ficarem felizes pelo retorno e me mostrarem que sempre haverá um lar para voltar.

Ao meu próprio processo psicoterapêutico por me proporcionar autoconhecimento suficiente para ter confiança em me desafiar sempre! E a Ney Matogrosso, que se não fosse ele, não seria existência e não daria linha de partida para tudo isso.



O que eu trouxe na bagagem?

Viajar sozinho te ensina que você é muito mais capaz do que imagina. Aprendi a ler mapas, a pedir tacos, a gerenciar horários malucos e, principalmente, a apreciar o silêncio. Descobri que sei falar muito bem, tanto espanhol quanto inglês; Além de me surpreender com o quanto o México é lindo. O João que voltou para casa é um cara muito mais confiante do que o João que embarcou.


E aí, qual o próximo destino?

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